Recordemos que a lei de Weber,

i.e., a diferença apenas perceptível da intensidade de um estímulo é sempre a mesma fracção da intensidade do estímulo inicial, não fazia qualquer referência explícita a processos psicológicos. Com efeito, mesmo a definição dos JND (Just Noticeable Difference, ou diferença apenas perceptível) era feita em termos de intensidade física.
É pois a Fechner que cabe o passo seguinte e que, pelas pressuposições de que parte, o coloca como o autor da primeira teoria científica da Psicologia, sob a forma de uma função matemática que estabelece uma relação entre as intensidades do mundo, tal como descrito pela Física, e as intensidades psicológicas. Mas vamos por partes.
O empreendimento de Fechner assentava em três pressupostos. A saber, (i) existe uma função que relaciona a magnitude das sensações (construto psicológico) e a estimulação física – função psicofísica; (ii) essa função é monotónica (uma subida da intensidade física nunca leva um decréscimo na magnitude da sensação); (iii) (este pressuposto é de teor mais técnico mas necessário para a derivação matemática; faremos os possíveis para o explicitar de forma compreensível) a função psicofísica é totalmente diferenciável, isto é, as transições geométricas entre JNDs tal como postuladas na lei de Weber, ocorrem de igual forma para variações infinitesimais da intensidade dos estímulos. Dito de outra forma, as transições entre sensações provocadas pelas alterações na intensidade do estímulo são contínuas (por oposição a discretas). A estes pressupostos acresce uma quarta, passível de ser enfraquecida (e sê-lo-á, a seu tempo), mas que constitui, para todos os efeitos, o primeiro postulado acerca de intensidades mentais: (iv) a cada JND corresponde uma unidade no contínuo de sensações. Isto é, ao fazer variar um estímulo de forma a que a diferença seja (apenas) perceptível estamos na verdade a modificar em uma unidade a intensidade da sensação subjectiva. Em termos formais,
em que ∆Ψ designa o incremento na intensidade mental necessário para modificar a magnitude da sensação e k a uma constante que designa simplesmente a unidade de medida adoptada para o contínuo sensorial.
Posto isto, e assumindo a validade da lei de Weber, ambas as formulações podem agora ser combinadas:
Considerando então o pressuposto (iii) temos que
e então
Deixando que
temos, por fim
Com uma escolha adequada de notação, em que na escala sensorial o zero é definido com o valor do limiar absoluto e 1 tomado como unidade de medida, temos:
Ou seja, a intensidade das sensações é uma função logarítmica da magnitude física dos estímulos. Dito ainda de outra forma, ao crescimento geométrico da intensidade do estímulo corresponde um crescimento aritmético da magnitude da sensação. Os leitores familiarizados com o estudo de funções reconhecerão de imediato uma forma negativamente acelerada nesta função, conforme podemos ver na seguinte imagem:

Porque este Post já vai excessivamente longo, remeteremos para um próximo uma explicação mais compreensiva do significado da lei de Fechner e um pequeno exercício para que os leitores menos familiarizados com a álgebra a que aqui recorremos possam de igual forma concluir a validade da lei de Fechner dados os pressupostos acima expressos.


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