É usualmente aceite o ano de 1879 como o início da Psicologia científica, ano em que Wundt funda o primeiro laboratório de Psicologia Experimental, em Leipzig. Não retirando valor a esse marco, é nossa convicção, juntamente com uma série de outros autores, que o início remontará antes a 1860 com a publicação da obra “Elementos de Psicofísica” pela mão de Gustav Fechner. Com efeito, a psicofísica parece ter sido a primeira tentativa científica séria do estudo dos processos mentais e, para todos os efeitos, permanece como a mais antiga área da Psicologia Experimental. Algo irónico parece ser contudo o espaço dedicado a este tema pela generalidade dos manuais universitários em que Fechner surge como um mero exemplo da contribuição da fisiologia para a Psicologia (na verdade Fechner havia‑se já distinguido enquanto físico e matemático, no seu tempo, e é num contexto epistemológico baseado nessas áreas que dá início à psicofísica. Da fisiologia herda apenas a metodologia e tecnologia instrumental) e a sua lei psicofísica – a primeira lei matemática da psicologia – somente como curiosidade histórica. Votados à ignorância ficam todas as evoluções e esforços subsequentes que ainda hoje ocupam parte considerável do tempo de muitos psicólogos, físicos e matemáticos que se preocupam com as questões centrais da área inaugurada por Fechner. E que dizer da Psicologia Matemática que para muitos (incluindo percentagem considerável de formados em Psicologia) ainda provoca, quanto muito, estranheza? Exceptuando a já referida psicofísica e alguns trabalhos pontuais de psicólogos experimentais, podemos referirmo‑nos à Psicologia Matemática de forma algo distinta a partir de meados de século XX. Preocupada com a formulação matemática (nalguns casos, axiomática) de fenómenos psicológicos, a Psicologia Matemática permanece como um área de destaque no esforço científico de compreensão do ser humano.
Procuraremos, neste Blog, introduzir na cultura geral todas estas áreas e respectivos produtos da inquirição de mais de 100 anos. Se por um lado a natureza cumulativa e, de certa forma, revisionista da epistemologia científica nos obriga, para este empreendimento, a exposições graduais, estruturadas e sistematizadas (de preferência em termos cronológicos), o estilo imposto por um Blog requer uma escrita mais espontânea em que cada post vale por si. Procuraremos, ao longo do tempo, o melhor compromisso entre ambos, sempre com particular ênfase nos requisitos para levar a bom termo o objectivos de divulgação a que nos propomos.

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