Sábado, Junho 03, 2006

Da Função Psicofísica Logarítmica à Função Psicofísica de Potência – Introdução

Vimos já, em postagens anteriores, como Fechner procurou formalizar uma lei psicofísica na qual era descrita a relação entre intensidades objectivas e magnitudes subjectivas, isto é, sensoriais, enquanto formulação teórica generalizada acerca da percepção humana. Na verdade, a ideia chave por detrás daquilo que hoje entendemos por função psicofísica não só não se deve originalmente a Fechner (cujo crédito é, convém sublinhar, a elevação da mesma a uma problemática geral de inquirição científica) nem tão pouco surge pela primeira vez estritamente no campo da Psicofísica, enquanto ramo científico. Mais que isso, praticamente desde que a ideia existe que duas alternativas formais são conhecidas e discutidas: a função logarítmica (neste momento, certamente já familiar ao leitor) e a função de potência.

Este será o tema global dos próximos artigos. Assim, começaremos por expor ao leitor a ideia de uma função psicofísica na definição da utilidade subjectiva, ponto crucial na teoria micro-económica. Este é um tópico que gostaríamos de vir a abordar com algum pormenor no futuro, quando nos ocuparmos com questões da Teoria da Decisão (um dos processos psicológicos básicos), no geral, e, em particular, com o a teoria de Daniel Kahneman, o primeiro cientista formado em Psicologia a ser laureado com o prémio Nobel da Economia em 2002. De momento, iremos focar a nossa atenção nas alternativas formais que, também aqui, e desde muito cedo, existem enquanto hipótese teórica para uma função psicofísica.

Após a publicação da obra de Fechner, a aceitação da lei logarítmica generalizou-se de tal forma que os poucos focos de dissidência a favor da função de potência foram sistematicamente ignorados durante quase um século, altura em que, por fim, S. S. Stevens consegue refutar a lei fechneriana a favor de uma função de potência – desde então reconhecida como a Lei de Stevens – numa grande diversidade de modalidades sensoriais. Como o próprio Stevens eloquentemente o coloca, “a emergência da Lei de Potência requereu a aliança entre (…) um procedimento experimental adequado e um esquema conceptual apropriado. Várias vezes ao longo da história da Psicofísica encontrámos um destes sem o outro” (1975; tradução livre). Uma breve revisão destes ocupará, de igual forma, parte considerável das discussões dos próximos artigos.

Terminaremos, pois, esta introdução com uma antevisão do que poderá o leitor encontrar quando terminarmos a próxima sequência de postagens. Em primeiro lugar, ficaremos, assim, em condições de sistematizar os fundamentos da Psicofísica Moderna (ainda que parte considerável dos temas que esboçámos brevemente ao longo do presente texto poderia, facilmente, ser apelidada com este termo) e, por fim, de delimitar o problema psicofísico tal como entendido na ciência contemporânea. Em segundo lugar, poderemos finalmente começar a introduzir de forma mais séria algumas bases da Teoria da Medida e áreas afins. Por último, encontraremos uma oportunidade privilegiada de apresentar ao leitor algumas das metodologias contemporâneas da Psicofísica e o seu estatuto enquanto ciência aplicada (este é, na verdade, um ponto que gostaríamos de tornar recorrente neste site).

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