Quarta-feira, Junho 14, 2006

Fundamentos de Psicofísica Moderna II – Da crítica à Psicofísica Clássica

Julgamos estar agora, uma vez publicadas algumas palavras acerca da concepção de medida postulada por Stevens, em condições de especificar a crítica avançada por este face aos resultados e conceitos da Psicofísica Clássica. Dois pontos merecerão, assim, destaque no presente artigo. A saber, (i) a extrapolação de dados da Psicofísica Local para a Psicofísica Global e (ii) o contraponto entre estimativas de diferenças e estimativas de razões levadas a cabo por seres humanos.

Da Psicofísica Local à Psicofísica Global. Conforme já esclarecemos nalguns textos anteriormente publicados, a Psicofísica Local, como o próprio nome desde logo sugere, refere-se, em poucas palavras, ao estudo dos fenómenos sensoriais sob um ponto de vista delimitado a variações locais da intensidade da estimulação. Por outras palavras, o estudo dos limiares, absolutos ou sensoriais, refere-se explicitamente à Psicofísica Local, no sentido em que os fenómenos a estudar se centram em processos de discriminação e detecção em zonas de intensidade limitadas. Em oposição, a Psicofísica Global refere-se ao funcionamento geral dos sistemas perceptivos ao longo de toda a faixa de magnitudes passível de se constituir enquanto estímulo. Na verdade, a ideia subjacente à função psicofísica é a questão por excelência da Psicofísica Global, neste mesmo sentido. Bastará ao leitor constatar que, com efeito, a postulação de uma qualquer função psicofísica congrega em si toda a informação necessária para uma formalização do funcionamento perceptivo no seu todo (ou, pelo menos, no que à percepção de intensidades diz respeito). Por outro lado, explicitámos já, de igual forma, como Fechner partiu dos resultados da Psicofísica Local para inferir as características da função psicofísica ou, por outras palavras, aspectos da Psicofísica Global. Por forma a compreender a crítica de Stevens a este ponto, importará recordar ao leitor como a variabilidade das respostas é parte integrante da Psicofísica Local, por um lado, e da metodologia de determinação de limiares, por outro. Com efeito, e citando Stevens, toda a Psicofísica Global postulada por Fechner baseia-se na determinação de limiares diferenciais, o que, não sendo novidade, assume aqui uma nova perspectiva: as conclusões derivadas por Fechner apoiam-se quase exclusivamente em dados emergentes da própria variabilidade das respostas dos sujeitos; para ir ainda mais longe, se entendermos esta variabilidade como resultante de erros ou confusão por parte dos sujeitos quando expostos a estímulos dificilmente diferenciáveis perceptivamente, Fechner socorreu-se ao fim e ao cabo de aspectos estatísticos desses mesmos erros – em suma, eleva o resultado estatístico desses erros e confusões ao estatuto de unidade de medida. Afinal, não será por acaso que, desde Stevens, a designação de Métodos de Confusão se tem aplicado com mais ou menos frequência às metodologias já expostas nos artigos acerca da Psicofísica Clássica. Não será certamente necessário discorrer muito mais acerca do assunto para concluirmos que a lógica de Fechner, assim exposta, não se revela de todo satisfatória para uma abordagem global do funcionamento psicofísico. Simplesmente, a Psicofísica Global, tal como entendida classicamente, apoia-se excessivamente em conceitos de variabilidade estatística e, mais que isso, trata-os como entidades estáticas, o que só como exercício inferencial teórico poderá ser aceite. Em suma, Stevens conclui daqui que uma abordagem do ponto de vista da Psicofísica Global teria necessariamente de partir de metodologias que clarificassem e explicitassem esse mesmo ponto de vista geral sobre as modalidades perceptivas e não somente como derivação teórica de observações locais. Isto leva-nos, pois, ao ponto seguinte.

Da estimação de diferenças de intensidade à estimação de razões de magnitude. Será de todo redutor afirmar peremptoriamente que a Psicofísica Clássica ignorou a Psicofísica Global enquanto perspectiva isolada da abordagem local. Com efeito, alguns dos nossos textos anteriores realçam este ponto: recorde-se o leitor como o método do estímulo fixo para a determinação de limiares está na base das comuns escalas numéricas (por exemplo, escala de 1 a 10). Ainda que constituindo-se como alternativa mais económica, é notória a mudança de perspectiva para um entendimento global do funcionamento psicofísico. Senão, note o leitor como o recurso a essa escala instrui o sujeito a referenciar-se à totalidade do contínuo sensorial em questão. Não obstante, note-se que a lógica subjacente permanece a mesma, tendo como conceito fulcral a ideia de diferenças entre estímulos – a tarefa do sujeito consiste, para todos os efeitos, na categorização dos estímulos de acordo com as diferenças percebidas. Com efeito, na Psicofísica Clássica, era já amplamente aceite (fruto dos trabalhos que temos vindo a expor ao leitor) que um sujeito seria perfeitamente capaz de proceder a estimativas de diferenças. Pois bem, por um lado, o tipo de escalas aqui envolvido, sendo, por definição, arbitrariamente definidos os seus valores, não estabelece definitivamente um zero absoluto, ainda que, note-se, em vez de uma escala de, por exemplo, 1 a 10 se use uma de 0 a 9 – a questão reside sempre na arbitrariedade dos valores escolhidos e no simples facto de se pedir uma estimativa de diferenças que, consoante poderá o leitor verificar com o artigo anterior, apenas estabelece condições para, quanto muito, se obter uma escala intervalar, conforme veremos já de seguida. Por outro lado, para que se obtenha uma escala de razão, a medida da sensação deverá, de alguma forma (e por definição – este ponto poderia ser mais proficuamente esclarecido se expuséssemos alguns fundamentos axiomáticos de medida, tópico que abordaremos eventualmente num artigo futuro; até lá, retenha o leitor esta ideia) fornecer informações acerca de relações de razão de sensações (por exemplo, “o dobro de” ou “metade de” ou ainda “3/4 de”, etc). A questão aqui reside no simples facto de, curiosamente, os teóricos da Psicofísica Clássica partirem do pressuposto que estimativas de razão por parte dos sujeitos seriam impossíveis. Senão, vejamos: o primeiro investigador a tentar a obtenção de dados por recurso a juízos de razão terá sido Merkel (1888), formado em
Física, numa experiência na qual os sujeitos eram instruídos para produzir um estímulo (mediante um controlo previamente calibrado) que lhes parecesse ter o dobro da intensidade de um outro, de referência. Conforme veremos nos artigos seguintes, este poderia ter sido um esforço que resultaria na antecipação do início da Psicofísica Moderna, tal como hoje a conhecemos. Infelizmente, Merkel parecia não ter qualquer quadro conceptual que lhe permitisse derivar deste engenhoso método uma escala de medida da sensação. Exemplificando de resto a ideia da restante comunidade científica da época acerca de estimativas de razão, podemos citar aqui Titchener que em 1923 afirma peremptoriamente (tradução livre): “Devemos lembrarmo-nos que ele [Merkel] é, na sua constituição mental, um físico mais que um psicólogo…”. Só na década de 30 do século XX é que metodologias semelhantes aquela usada por Merkel se generalizariam entre a comunidade de psicofísicos (curiosamente essencialmente graças à invenção do telefone, cuja tecnologia permitia agora uma manipulação mais rigorosa da intensidade de estímulos auditivos), e a capacidade de sujeitos humanos estimarem razões entre intensidades seria testada. Podemos avançar desde já, para satisfazer o leitor mais curioso, que não só os sujeitos se revelam surpreendentemente estáveis nas suas respostas a tarefas desta natureza – quer entre sujeitos quer entre respostas consecutivas de um mesmo sujeito – como revelam sistematicamente certos padrões matemáticos nas suas respostas. Este será, com efeito, o tema de honra a explorar nos próximos artigos.

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