Sexta-feira, Junho 16, 2006

Fundamentos de Psicofísica Moderna III – Dos Métodos de Escalonamento Directo

Entramos, com este artigo, no último ponto a considerar enquanto preparação para uma explanação da Psicofísica de Stevens. Para tal, fará sentido recordar ao leitor, em jeito de síntese, em que ponto ficámos na formulação do problema psicofísico. Essencialmente, dada a validade da Lei de Weber para o contínuo do estímulo, duas hipóteses acerca do contínuo sensorial seriam plausíveis, a saber, (i) um crescimento aritmético da sensação, hipótese defendida por Fechner e que resultaria numa função psicofísica logarítmica; e (ii) um crescimento geométrico da sensação, hipótese avançada por Brentano e cuja previsão resultaria numa função psicofísica de potência. O leitor poderá apreciar esta síntese na imagem seguinte e notar que a distinção entre ambas as alternativas depende intrinsecamente de um postulado acerca do contínuo sensorial.


O problema, de forma simples, é o seguinte: obviamente as sensações são fenómenos não observáveis pelo experimentador. Por outras palavras, são reacções às quais é impossível ter acesso e, como tal, dificilmente passíveis de qualquer mensuração directa. Não obstante, tal não significa que as sensações não possam ser inferidas, desde que tenhamos acesso a alguma informação objectiva e, logo, passível de medida. É na resolução desta questão que Stevens se vem a destacar. É importante notar agora o seguinte aspecto – Stevens era, em termos epistemológicos, um operacionalista (mais precisamente, e para nos situarmos na história da Psicologia, um behaviorista). Isto é, e em termos simples, Stevens repudiaria qualquer conceito ou construto não sujeito a observação directa, como é o caso da noção de “sensação”, tal como entendida na Psicofísica Clássica. No entanto, as respostas e comportamentos dos sujeitos são observáveis objectivamente e não é de todo ilógico assumir uma estreita ligação entre estas e as “sensações” subjectivas. Devemos abrir aqui parêntesis por forma a dar conta do seguinte – apesar desta orientação teórica e formulação conceptual, Stevens irá manter em todos os seus textos o termo “Sensação”; uma leitura descuidada do mesmo poderá levar-nos a negligenciar o operacionalismo subjacente à sua obra; com efeito, onde se lê sensação, dever-se-á, quando de um texto de Stevens se trata, ler “resposta”; esta ambiguidade parece, na verdade, estar na origem de uma série de mal-entendidos acerca da obra de Stevens. Em suma, substituindo R (Resposta) por ψ no quadro acima, teremos então:


Posto isto, restava agora a Stevens uma metodologia empírica adequada à medida das sensações subjectivas, mediante o registo objectivo das respostas dos sujeitos. É agora que serão úteis os artigos que publicámos anteriormente acerca da concepção de medida de Stevens. Com efeito, uma qualquer tarefa psicofísica consistirá, obviamente, na apresentação de intensidades físicas – estímulo – ao sujeito experimental cuja tarefa será, rigorosamente, usar-se a si mesmo (mais propriamente, ao seu sistema perceptivo) enquanto instrumento de medida e comunicar ao investigador a leitura dessa mesma medida. Dado que “medir” deverá ser entendido como o acto de correspondência entre dois contínuos, ao sujeito caberá a tarefa de fazer corresponder um qualquer contínuo de Resposta ao contínuo percepcionado de Sensação. Se entendermos o contínuo numérico como um possível contínuo de resposta, restará ao sujeito atribuir números às sensações despoletadas pelos estímulos de tal forma que quanto maior a sensação, maior deverá ser o número a ser fornecido. Mais que isso, para garantir uma medida de razão, o sujeito deverá procurar respeitar razões entre respostas sucessivas, capacidade que Stevens demonstrou ser perfeitamente realizável por seres humanos, conforme iremos ter oportunidade de mostrar em artigos subsequentes. Stevens desenvolveu uma série de métodos de medida de razão da “sensação”. Porém, como alguns desses resultam de previsões teóricas que ainda não poderemos explicitar ao leitor, iremos limitar-nos aqui a expor os chamados métodos de Estimação de Magnitude. Ainda na lógica da definição de uma medida de razão, Stevens sabia desde logo que (i) teria de existir à partida um estímulo de referência com um módulo numérico estabelecido, por forma a definir a unidade de medida e permitir estimativas de razão; (ii) o uso dos números por parte dos sujeitos não deveria ser limitada senão pelo 0, que assumiria pois o estatuto de zero absoluto; isto é, o sujeito poderia recorrer a qualquer número tão alto como desejasse por forma a conseguir exprimir a magnitude sensorial; (iii) a manutenção de razões deveria ser explícita e clara para os sujeitos experimentais. Por forma a alcançar estas exigências, Stevens desenvolve o método de Estimação de Magnitude: O sujeito é exposto, antes de mais a um estímulo de referência (de início usou o estímulo mais intenso do conjunto de estímulos, mas rapidamente se revelou óbvio que a melhor referência deveria ser um estímulo de intensidade mediana), sendo informado que essa intensidade corresponde a um dado valor, estabelecido arbitrariamente à partida (por exemplo, 100). O sujeito é ainda instruído de que, como tarefa, deverá, perante a apresentação sucessiva de estímulos, fornecer números que variem em relação ao módulo (100) com razões semelhantes aquelas entre o estímulo de referência. Dito de outra forma, se um qualquer estímulo for percepcionado pelo sujeito como tendo metade da intensidade do estímulo de referência, deverá responder 50 (isto é, metade de 100). Se, por outro lado lhe parecer o dobro da referência deverá dizer 200. Se lhe parecer 1/10 vezes mais pequeno deverá responder 10, e assim sucessivamente. Uma variação deste método seria a Estimação de Magnitude Absoluta, na qual (respeitando a definição de escalas de medida absolutas) o módulo do estímulo de referência, ao invés de ser definido a priori pelo experimentador, é-o pelo próprio sujeito, que, perante esse estímulo, deverá escolher um qualquer número que lhe pareça adequado para exprimir a magnitude sensorial. Obviamente, nesta variação, e quando se recorre a vários sujeitos, a unidade de medida variará entre sujeitos e, como tal, as respostas deverão ser reescalonadas para uma unidade comum, antes de uma análise do conjunto de respostas. Seja como for, esta metodologia veio a ficar conhecida sob o nome de Métodos Directos, não porque se tenha acesso directo à sensação mas porque, ao contrário do que ocorria na Psicofísica Clássica (logicamente, Métodos Indirectos), dois contínuos – o sensorial, ou melhor, de resposta, e o físico ou do estímulo, são registados em simultâneo e relacionados directamente entre si.

Guardamos para o nosso próximo texto uma apresentação formal da Lei de Stevens, resultado imediato e empírico do trabalho aqui exposto.

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