Poderíamos aqui realçar o quanto a ideia e concepção de medida se tem desenvolvido, inexoravalmente, a par com conceitos centrais dos fundamentos da matemática (por exemplo, a questão da formalização dos números enquanto entidades matemáticas; a questão da incomensurabilidade dos números irracionais; a construção do contínuo de números reais, com especial uma especial referência para o axioma da continuidade de Dedekind). Tanto assim é que, quase desde início, a fundamentação das ciência empíricas e naturais tem assentado nessas noções, sob a forma daquilo a que frequente nos referimos como o “Imperativo Quantitativo”.
Da mesma forma, a Psicologia, especialmente se tomarmos como início o trabalho de Fechner, parece ter nascido naquele contexto científico onde, talvez, o “Imperativo Quantitativo” mais se fez sentir na história do pensamento ocidental. Senão vejamos, em finais do século XIX (recordamos que Fechner publica a sua obra “Elementos de Psicofísica” em 1860), a comunidade científica actuava sob a sombra do sucesso das concepções de Newton acerca da Mecânica Celeste. Tanto que o Homem cientista de então acreditava que seria a Matemática, pelo “Imperativo Quantitativo”, a ferramenta de excelência para a compreensão global dos fenómenos mundanos, numa postura de apreensão do mundo claramente determinista. Com efeito, não demorou muito até que o sucesso alcançado no estudo da mecânica celeste fosse generalizado para outros fenómenos físicos, como electricidade, magnetismo e calor.
Uma compreensão da medida em Psicologia, num contexto epistemológico, passa necessariamente pela compreensão destes aspectos. Ou não fosse neste que Fechner elaboraria toda a sua concepção da Psicofísica, com uma clara concepção da medida herdada da noção de aditividade de magnitudes da Física (conforme já tivemos oportunidade de referir quando expusemos os pressupostos fundamentais da Psicofísica Fechneriana).
Uma série de outros autores posteriores a Fechner, e que de uma forma ou de outra prosseguiram trabalhos no mesmo sentido – Medida Psicológica –, como, por exemplo, Wundt, Titchener, Donders, Ebbinghaus, Galton, Spearman – poderiam ser aqui referidos com algum pormenor. No entanto, o ponto geral a notar aqui é que todas essas concepções e esforços de medida se mantiveram mais ou menos restritos à área específica de actuação e, para todos os efeitos, ignoradas pela comunidade científica no global ou mesmo severamente criticada na sua cientificidade (recordamos que só mais tarde o problema da delimitação científica se vê devidamente trabalhado pela Filosofia da Ciência). De resto, em fracções menos informadas, esta visão permanece nalguns focos de actividade.
De qualquer forma, um evento importante na história e compreensão do estatuto epistemológico da medida em Psicologia tem que ver com o chamado “Inquérito Britânico”, para todos os efeitos o principal “motor” da concepção teórica moderna da medida, em geral.
Em poucas palavras, e praticamente na sequência dos trabalhos de Stevens, é organizado pela Associação Britânica para o Avanço da Ciência um inquérito acerca do estatuto de medida em Psicologia. Tal deveu se a alguma suspeita do real estatuto dos trabalhos de Stevens enquanto medida, no sentido forte do termo. Poderá o leitor questionar se porquê só em meados do século XX a questão ter recebido esta atenção, e não antes, na sequência do trabalho de Fechner. Só nos é possível especular a este respeito, mas estamos em crer que, por um lado, a formulação Fechneriana sempre assentou em assunções a priori acerca do contínuo subjectivo de sensação, sem qualquer menção a um tratamento “real” do mesmo. Pelo contrário, e conforme temos vindo a verificar, Stevens, enquanto operacionalista, assume as respostas numéricas dos sujeitos a determinadas intensidades de estimulação como meio priveligiado para inferir as sensações subjacentes e, logo, trata as como se de um contínuo físico se tratasse, ou melhor, com um estatuto semelhante às informações lidas num qualquer instrumento de medida. Por outro lado, o trabalho de Fechner só parcialmente e em meios restritos foi prosseguido, tendo se mantido, na história da ciência, como mera curiosidade histórica ou como factor de influência da fisiologia no desenvolvimento da Psicologia. Contrariamente, a elaboração paradigmática de Stevens preocupou se, quase de início, e de forma directa e explícita, com a respectiva aplicação prática e tecnológica, o que culmina numa maior divulgação dos seus esforços.
Seja como for, o “Inquérito Britânico” parece ter sido conduzido, essencialmente, entre duas perspectivas opostas. A saber, por uma lado, aquela encabeçada por Campbell, fundamentada nos trabalhos de Helmholtz – acerca da base axiomática da medida – e Hölder – cujo trabalho esclareceu o estatuto da medida do peso, numa lógica axiomática. Por outro, a posição de Stevens, na sua concepção de medida enquanto operação de correspondência entre números e atributos ou objectos, que centra a sua atenção na chamada teoria das escalas de medida defendendo a possibilidade de uma medição significativa de variáveis psicológicas.
Ironicamente, as formulações de Campbell acabam por desempenhar um papel central na Teoria Representacional da Medida (refira-se, uma das mais nucleares áreas da Psicologia Matemática), axiomatização dos problemas e concepções avançados por Stevens, em cujo núcleo reside a questão da necessidade ou não da operação de concatenação na medida em Psicologia.
Os próximos artigos aqui apresentados aos leitores procurarão explicitar os pontos aflorados neste nosso (necessariamente breve) trecho introdutório.
Da mesma forma, a Psicologia, especialmente se tomarmos como início o trabalho de Fechner, parece ter nascido naquele contexto científico onde, talvez, o “Imperativo Quantitativo” mais se fez sentir na história do pensamento ocidental. Senão vejamos, em finais do século XIX (recordamos que Fechner publica a sua obra “Elementos de Psicofísica” em 1860), a comunidade científica actuava sob a sombra do sucesso das concepções de Newton acerca da Mecânica Celeste. Tanto que o Homem cientista de então acreditava que seria a Matemática, pelo “Imperativo Quantitativo”, a ferramenta de excelência para a compreensão global dos fenómenos mundanos, numa postura de apreensão do mundo claramente determinista. Com efeito, não demorou muito até que o sucesso alcançado no estudo da mecânica celeste fosse generalizado para outros fenómenos físicos, como electricidade, magnetismo e calor.
Uma compreensão da medida em Psicologia, num contexto epistemológico, passa necessariamente pela compreensão destes aspectos. Ou não fosse neste que Fechner elaboraria toda a sua concepção da Psicofísica, com uma clara concepção da medida herdada da noção de aditividade de magnitudes da Física (conforme já tivemos oportunidade de referir quando expusemos os pressupostos fundamentais da Psicofísica Fechneriana).
Uma série de outros autores posteriores a Fechner, e que de uma forma ou de outra prosseguiram trabalhos no mesmo sentido – Medida Psicológica –, como, por exemplo, Wundt, Titchener, Donders, Ebbinghaus, Galton, Spearman – poderiam ser aqui referidos com algum pormenor. No entanto, o ponto geral a notar aqui é que todas essas concepções e esforços de medida se mantiveram mais ou menos restritos à área específica de actuação e, para todos os efeitos, ignoradas pela comunidade científica no global ou mesmo severamente criticada na sua cientificidade (recordamos que só mais tarde o problema da delimitação científica se vê devidamente trabalhado pela Filosofia da Ciência). De resto, em fracções menos informadas, esta visão permanece nalguns focos de actividade.
De qualquer forma, um evento importante na história e compreensão do estatuto epistemológico da medida em Psicologia tem que ver com o chamado “Inquérito Britânico”, para todos os efeitos o principal “motor” da concepção teórica moderna da medida, em geral.
Em poucas palavras, e praticamente na sequência dos trabalhos de Stevens, é organizado pela Associação Britânica para o Avanço da Ciência um inquérito acerca do estatuto de medida em Psicologia. Tal deveu se a alguma suspeita do real estatuto dos trabalhos de Stevens enquanto medida, no sentido forte do termo. Poderá o leitor questionar se porquê só em meados do século XX a questão ter recebido esta atenção, e não antes, na sequência do trabalho de Fechner. Só nos é possível especular a este respeito, mas estamos em crer que, por um lado, a formulação Fechneriana sempre assentou em assunções a priori acerca do contínuo subjectivo de sensação, sem qualquer menção a um tratamento “real” do mesmo. Pelo contrário, e conforme temos vindo a verificar, Stevens, enquanto operacionalista, assume as respostas numéricas dos sujeitos a determinadas intensidades de estimulação como meio priveligiado para inferir as sensações subjacentes e, logo, trata as como se de um contínuo físico se tratasse, ou melhor, com um estatuto semelhante às informações lidas num qualquer instrumento de medida. Por outro lado, o trabalho de Fechner só parcialmente e em meios restritos foi prosseguido, tendo se mantido, na história da ciência, como mera curiosidade histórica ou como factor de influência da fisiologia no desenvolvimento da Psicologia. Contrariamente, a elaboração paradigmática de Stevens preocupou se, quase de início, e de forma directa e explícita, com a respectiva aplicação prática e tecnológica, o que culmina numa maior divulgação dos seus esforços.
Seja como for, o “Inquérito Britânico” parece ter sido conduzido, essencialmente, entre duas perspectivas opostas. A saber, por uma lado, aquela encabeçada por Campbell, fundamentada nos trabalhos de Helmholtz – acerca da base axiomática da medida – e Hölder – cujo trabalho esclareceu o estatuto da medida do peso, numa lógica axiomática. Por outro, a posição de Stevens, na sua concepção de medida enquanto operação de correspondência entre números e atributos ou objectos, que centra a sua atenção na chamada teoria das escalas de medida defendendo a possibilidade de uma medição significativa de variáveis psicológicas.
Ironicamente, as formulações de Campbell acabam por desempenhar um papel central na Teoria Representacional da Medida (refira-se, uma das mais nucleares áreas da Psicologia Matemática), axiomatização dos problemas e concepções avançados por Stevens, em cujo núcleo reside a questão da necessidade ou não da operação de concatenação na medida em Psicologia.
Os próximos artigos aqui apresentados aos leitores procurarão explicitar os pontos aflorados neste nosso (necessariamente breve) trecho introdutório.

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