Pretendemos com este pequeno excerto introdutório tornar óbvio ao leitor de que forma as sensações modelam o nosso contacto com o mundo ou, mais precisamente, de que forma extraímos deste informações pertinentes no nosso contacto ou relação com o mesmo. Sendo, de certa forma, toda esta fenomenologia o objecto de estudo, por excelência, da Psicofísica, faz sentido, na prossecução da nossa discussão em torno da Lei de Stevens, trazer à atenção do leitor esta perspectiva ecológica. Com efeito, deverá ser agora notória uma definição da Psicofísica como a ciência que concebe os sistemas sensoriais (humanos ou não) enquanto mecanismos de medida – ou não serão as relações de grandeza e magnitude um aspecto deveras incontornável na nossa experiência mundana?
Poderá o leitor interrogar-se neste momento acerca da relação entre a Lei de Stevens, tal como a temos vindo a apresentar – focando-nos essencialmente em aspectos formais – com estas observações preliminares. Recordemos, para tal, que ao contrário da Lei de Fechner – que postulava que a um crescimento geométrico do estímulo corresponderia um crescimento aritmético da sensação –, a Lei de Stevens prevê um crescimento geométrico da sensação em função de um crescimento geométrico do estímulo. Dito de outra forma, a iguais razões entre estímulos correspondem iguais razões entre sensações. Mais que isso, o expoente da função corresponde à taxa relativa de crescimento das duas dimensões, e daí que seja considerado, na Psicofísica Moderna, um índice de sensibilidade. Observemos, por momentos, alguns exemplos de funções psicofísicas de potência, tal como obtidas por Stevens, na imagem seguinte (adaptada de Geschider, 1997; alguns aspectos importantes acerca destes dados serão explorados num artigo futuro; por agora, bastará ao leitor saber que o eixo vertical representa uma medida sensorial):

O gráfico encontra-se em coordenadas logarítmicas (isto é, cada um dos eixos, ao invés de se encontrar marcado com os valores reais representa os logaritmos dos mesmos) o que, como já anteriormente referimos, resulta numa representação linear das funções psicofísicas. De resto, os pontos correspondem aos resultados empíricos obtidos e as linhas ao ajuste estatístico da Lei de Stevens. Por fim, as diferentes funções foram dispersas horizontalmente para facilitar a inspecção visual.O leitor notará de imediato uma grande variação dos declives das rectas (e, logo, dos expoentes das funções), abrangendo modalidades com valores claramente superiores a 1 e outras inferiores. Não obstante, mantêm-se a proporcionalidade de sensações entre diferentes intensidades dos estímulos.
Sem entrar em pormenores (e, devemos dizê-lo, seguindo a linha de raciocínio do próprio Stevens, 1975), deveremos neste momento fazer notar a ubiquidade de leis com forma de funções de potência na Física, o que faz desta uma das mais frequentes em termos abstractos. Em parte, tal deve-se à forma como a Física opta por descrever o mundo, mas essencialmente porque a medida de quantidades primitivas (massa, distância, tempo) deve, à partida, obedecer ao chamado “requisito de razões”, isto é, as razões entre quantidades não deverá depender da unidade de medida adoptada (Se um qualquer fenómeno durar o dobro do tempo de um outro, esta asserção de “um dobro de” deverá ser válida tanto quando o tempo é medido em horas, segundos, batidas de um pêndulo ou mesmo grãos de areia numa ampulheta). Mais que isso, quando certas quantidades primitivas são combinadas em forma de leis, esse requisito impõe uma forma funcional particular em que apenas potências dessas mesmas quantidades podem ser combinadas.
Por outro lado, de certa forma, os seres vivos relacionam-se com o mundo de forma eficiente ao comportarem-se como físicos intuitivos, estimando intensidades de certos fenómenos, combinando informações provenientes do seu ambiente e prevendo efeitos das mesmas. Neste sentido, as sensações exibem propriedades adaptativas se fornecerem informações com algum grau de estabilidade e veracidade, e tudo isso num ambiente em constante mutação (só para referir o óbvio, tanto nós como outros seres que nos rodeiam movem-se constantemente, os sons emitidos por esses parecem assim mais ou menos distantes e a luminosidade ambiental altera-se ao longo das alternâncias dia-noite).
Dado este contexto, o que será mais adaptativo numa espécie animal: que as diferenças entre estímulos se mantenham constantes ou que, pelo contrário, sejam as razões entre os mesmos estáveis? A resposta é óbvia, mesmo que não tivéssemos apresentado o “requisito das razões” – as razões entre estímulos deverão ser constantes. Senão vejamos, quão estranho seria o mundo se ao leitor, enquanto se aproximasse de um qualquer objecto (por exemplo, uma casa), a proporcionalidade do seu tamanho não se mantivesse constante e, pelo contrário, a percepção do mesmo fosse diferente consoante a distância a que dele se encontrava? Ou que as relações entre os sons da fala não mantivessem a sua proporcionalidade perceptiva ao longo de variadas frequências e intensidades, impossibilitando a compreensão das palavras? Raciocínios semelhantes são possíveis para modalidades específicas. Vejamos o exemplo da Dor (expoente de 1.39) ou mesmo do esforço físico (expoente de 1.7). Dado que ambos possuem um expoente superior a 1, as funções psicofísicas serão positivamente aceleradas. Por outras palavras, a sensação aumenta mais rapidamente que o estímulo. Este simples facto possui um inestimável valor adaptativo: suponha o leitor que se encontra numa qualquer situação em que está exposto a uma dor crescente; se a sensação de dor cresce a um ritmo mais elevado que a estimulação física que a provoca, então a probabilidade é grande de que o leitor atinja uma sensação intolerável antes que os danos físicos sejam excessivos. O leitor poderá aplicar uma lógica semelhante ao esforço físico. Por outro lado, a sensação de luminosidade ou de sonoridade podem ser descritos pelo seu expoente relativamente baixo e inferior a 1. Isto é, para um crescimento constante do estímulo, a velocidade de aumento da sensação tende a diminuir. Consequentemente, a sensibilidade a diferenças entre sons relativamente baixos é superior aquela entre sons muito altos, uma característica claramente adaptativa num mundo em que naturalmente é-nos mais adaptativo sermos mais precisos na percepção de sons pouco ou medianamente intensos.
Em jeito de conclusão, a Lei de Stevens evoca em si mesma um ponto importante e que, muito para além da formalização da relação entre magnitudes físicas e percebidas, acarreta um claro valor teórico: de certa forma, os sistemas perceptivos parecem possuir o seu próprio “requisito de razões”; não na sua forma matemática como encontramos na Física, mas num sentido prático e intuitivo e com vantagens adaptativas evidentes.


















