Domingo, Setembro 03, 2006

Teoria Representacional da Medida e o Problema da Unicidade

O âmbito do segundo problema fundamental da medida – o problema da unicidade – é imediato se o leitor notar que existem com frequência importantes diferenças fundamentais entre o tipo de atribuição numérica a objectos derivada de diferentes procedimentos de medida. De facto, é neste âmbito que se configura a questão do Tipo de Escala de Medida.

Um exemplo clássico é o seguinte. Tome o leitor, por exemplo, as seguintes declarações: (i) “a razão da temperatura máxima de hoje (tn) com a de ontem (tn-1) é de 1.10”; (ii) “a razão da diferença das temperaturas máximas de ontem e de hoje (tn e tn-1) com aquela entre hoje e amanhã (tn e tn+1) será de 0.95”. Em primeiro lugar, poderá o leitor notar que ambas as declarações omitem a unidade de medida usada (Celsius, Fahrenheit, Kelvin), o que faz de ambas frases algo ambíguas. Contudo, a ambiguidade da frase (i) é crítica. Senão vejamos, suponha o leitor que na declaração (i) nos referíamos a graus Fahrenheit e que tn=110 e tn-1=100. Concluiríamos, de imediato, que (i) é verdadeira. Porém, repetindo o exercício em graus Celsius – tn=43.3 e tn-1=37.8 – a razão é de 1.15 e não de 1.10, falsificando assim a frase (i). O ponto a notar é que a afirmação é desprovida de significado, pois a sua validade não é invariante consoante a medida usada. Por outro lado, suponha o leitor que na frase (ii) nos referíamos a graus Fahrenheit, tendo, como exemplo, tn-1=60, tn=79 e tn+1=99. É fácil verificar que a asserção (ii) é, desta forma, verdadeira. Contudo, convertendo os graus Fahrenheit para graus Celsius temos tn-1=15.56, tn=26.11 e tn+1=37.2. Como poderá o leitor verificar, a declaração (ii) é, assim, igualmente verdadeira, pelo que concluímos que a mesma é dotada de significado empírico. Note se que ambas as frases não possuíam, à partida, referência a unidades de medida, mas nem por isso uma delas deixou de ser válida. O ponto é que a determinação de unidades de medida e a apreciação do seu significado empírico é uma discussão que sucede, e não antecede, a investigação do significado da escala, ao contrário do que se poderia presumir à partida. De qualquer modo, o ponto a notar é que estas escalas de medida da temperatura (Fahrenheit e Celsius) apenas permitem asserções válidas para intervalos de intensidade, e não para razões. Dito de outra forma, a validade das mesmas mantém-se para transformações que preservem os intervalos, ou transformações lineares. Ainda de outra forma, a sua unicidade mantém-se somente para essas transformações.

No contexto da Teoria Representacional da Medida, o conceito de escala é nos dado por: Sendo ξ um sistema relacional empírico, λ um sistema relacional numérico e f uma função que faz corresponder ξ a um sub sistema de λ, temos que


é uma escala.
Por outro lado, recordamos, a teoria das escalas de medida terá sido avançada por Stevens, sendo que, de forma breve, o essencial da operação de medir consistiria na ideia de correspondência. Por norma, medir significa, neste contexto, fazer corresponder números a objectos de acordo com um certo conjunto de regras. Mais, as transformações posteriores que são possíveis efectuar na escala assim obtida sem perda de informação determinariam o tipo de medida ou escala alcançado, tendo Stevens distinguido os seguintes:


Neste sentido, torna se óbvio que o tipo de escala é nos dado pela relativa unicidade da função f, acima. Por exemplo, assuma o leitor que


é uma escala, tal como


Assim,


será uma escala de razão se existir uma transformação φ de semelhança tal que


em que ● se refere à composição de funções, i.e.,


O mesmo raciocínio pode, facilmente, ser generalizado para as restantes escalas.

Por fim, e retomando o nosso exemplo das temperaturas, é trivial concluir que essas escalas em particular serão do tipo intervalar (pelo menos apresentam empiricamente um comportamento compatível com estas; deixamos aqui esta nota pois, ao contrário do que frequentemente é sugerido, a determinação do tipo de escala resulta da prova de um Teorema da Unicidade, exercício apenas possível no âmbito de uma formalização axiomática do sistema de medida em causa).

Sexta-feira, Setembro 01, 2006

Teoria Representacional da Medida e o Problema da Representação

O problema da representação, em Teoria da Medida, diz respeito a questão de averiguar até que ponto as representações numéricas e formais resultantes da operação de medida traduzem, de forma isomórfica, as propriedades a serem mensuradas. Obviamente, o uso dos números nas formulações primitivas de medida não se faziam de forma independente dos objectos mensurados e, logo, esta questão via-se resolvida quase de imediato. Veja-se a questão da contagem de bens: a expressão 2+3 só faria sentido no contexto da contagem de objectos específicos (e.g., maçãs ou peras) e não enquanto entidade formal por si mesma, isolada do mundo. Trivialmente, porém, nos termos da lógica moderna, existe uma aritmética de números e não de objectos específicos (aritmética de maçãs ou aritmética de peras), sendo então, o primeiro problema fundamental da medida mostrar que as representações numéricas e respectivas propriedades aritméticas podem constituir isomorfismos significativos de operações físicas e reais. Claramente, na contagem de bens, tal não levanta qualquer dificuldade. Mas nem sempre é assim. Neste sentido, torna-se útil formalizar devidamente esta questão.

Conforme o explicitam Suppes & Zinnes (1967), podemos reformular problema da representação como “Caracterizar as propriedades formais das operações empíricas e relações usadas no procedimento [de medida] e mostrar que essas são isomórficas de operações e relações numéricas convenientemente escolhidas” (tradução nossa).

Assim, o problema da representação pode ser explicitado de forma mais precisa por recurso à noção de Tarski de Sistema Relacional, i.e., uma sequência finita da forma


em que A é um conjunto não vazio de objectos, o domínio do sistema, e R1,…Rn relações em A. Por exemplo, se R1,…Rn constituírem relações binárias (Por exemplo, ≥, ≤, >, <, =) temos que algumas das suas propriedades poderão ser (O leitor poderá intuitivamente compreender a maioria destas relações, aqui formalizadas, se tomar, por exemplo, R(x,y) como x ≥ y.): -Relação transitiva: Se R(x,y) e R(y,z) então R(x,z), para todo o x, y e z pertencentes ao domínio;

-Relação intransitiva: Se R(x,y) e R(y,z) então não R(x,z), para todo o x, y e z pertencentes ao domínio;

-Relação simétrica: Sse R(x,y) então R(y,x), para todo o x e y pertencentes ao domínio;

-Relação assimétrica: Sse R(x,y) então não R(y,x), para todo o x e y pertencentes ao domínio;

-Relação antissimétrica: Se R(x,y) e R(y,x) então x=y, para todo o x e y pertencentes ao domínio;

-Relação reflexiva: Sse R(x,x), para todo o x pertencente ao domínio;

-Relação irreflexiva: Sse não R(x,x), para todo o x pertencente ao domínio;

-Relação Fortemente Conectada: Sse R(x,y) ou R(y,x), para todo x e y pertencentes ao domínio;

-Relação Conectada: Sse R(x,y) ou R(y,x), para todo x e y pertencentes ao domínio e com x≠y;


Impõe-se, então, uma distinção entre sistemas relacionais numéricos – a representação resultante da medida – e sistemas relacionais empíricos – referentes aos objectos a serem medidos. Por exemplo, enquanto sistema relacional numérico podemos ter

isto é, um sistema no qual o domínio corresponde ao conjunto dos números reais e < à relação numérica “menor que”. Da mesma forma, enquanto sistema relacional empírico podemos ter
em que A corresponde à colecção de objectos a medir e à relação empírica “menor que”. Exemplificando, se A constituir um conjunto de objectos cuja massa pretendemos medir, referir se á à constatação “menos pesado que”. Mostrar que estes dois sistemas possuem propriedades isomórficas é, de facto resolver o problema da representação.